Módulo 3 · Aula 2
Os Deslizes Infantis e o "Círculo de Amor e Força"
Na pré-adolescência e na Segunda Infância, é comum surgirem lapsos morais e comportamentos desafiadores. Na psicanálise de Donald Woods Winnicott, esses atos são agrupados sob o conceito de "tendência antissocial".
Diferentemente do que muitos pais supõem, a tendência antissocial não é uma maldade inata ou um defeito constitucional incorrigível de caráter. Trata-se de um comportamento de atuação (acting-out) e um sinal de esperança e apelo de socorro. Esse sinal surge quando uma criança — que já havia experimentado um ambiente familiar suficientemente bom — sofre uma perda brusca de atenção, segurança ou estabilidade no lar.
A tendência antissocial manifesta-se através de um amplo espectro de comportamentos que visam atingir e incomodar o ambiente familiar:
- Avidez: Uma busca compulsiva e insaciável por atenção, presença, colo e comunicação, considerada por Winnicott a precursora do roubo.
- Alterações de Eliminação e Higiene: Recusa sistemática de defecar no momento correto, enurese (xixi na cama), encoprese e a atitude de fazer sujeira proposital no ambiente doméstico.
- Destrutividade e Agressividade: Quebrar objetos e vidraças, arrancar plantas, maltratar animais ou causar estragos nos pertences da casa.
- Roubos e Mentiras: Ações compulsivas que a criança realiza sem saber o motivo exato, impulsionada pelo desejo inconsciente de recuperar o "objeto bom" e o amor do qual se sentiu despossuída.
- Provocações e Criação de Confusões: Comportamentos desorganizados que geram trabalho, preocupação e desgaste extra para os pais.
Winnicott organiza as manifestações da tendência antissocial em dois eixos principais de reivindicação:
- Eixo 1 — Reivindicação do Cuidado Materno (Roubo, Mentira, Avidez, Enurese e Sujeira): A criança busca recuperar a atenção e o acolhimento materno de que se sentiu privada. O roubo é a tentativa de tomar de volta o "objeto bom" sobre o qual sente ter direito.
- Eixo 2 — Reivindicação da Estrutura Paterna (Destrutividade e Agressividade): A criança expressa destrutividade para forçar o ambiente a oferecer uma figura paterna forte, severa e amorosa. Ela precisa de um pai que ponha limites claros aos seus impulsos sem retaliação.
A maneira como os pais reagem aos deslizes do filho determina se o problema será corrigido ou se consolidará como um sintoma grave.
- A Armadilha do Inquisidor: Se os pais reagem a um roubo ou mentira agindo como "inquisidores ferozes" — exigindo confissões sob ameaças violentas, gritos ou humilhações —, eles provocam uma culpa insuportável na criança. Para se defender desse pânico, a criança divide sua psique e passa a mentir de forma compulsiva e sistemática.
- O Círculo de Amor e Força: Nos estágios de desenvolvimento, a criança precisa viver dentro de um "círculo de amor e força". Isso significa que a autoridade dos pais precisa ser firme, rigorosa e limítrofe, mas sem jamais responder com raiva, vingança, humilhação ou retaliação pessoal.
Quando os pais suportam o teste da conduta do filho sem perder o autocontrole e sem destruir a relação, a criança recupera a confiança no ambiente, resgata o sentimento de culpa saudável e desenvolve o desejo genuíno de reparar o dano causado.
A Palavra de Deus ensina os pais a exercerem a disciplina sem exasperar os filhos nem agir com tirania:
"E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor." — Efésios 6:4
"Irmãos, se algum homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, restaurai o tal com espírito de brandura; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado." — Gálatas 6:1
Corrigir sob a ótica cristã significa restaurar com firmeza e brandura, conduzindo o filho da responsabilização pelo erro à reparação da conduta. Perceba que tudo nos leva à ação — e é isso que o papel do adulto exige: uma ação protetora. Mesmo que a criança não goste da atitude dos pais, ela pode reconhecê-la, em seu mundo interior, como uma expressão de amor. Nesses momentos, não seja indiferente nem deixe a situação passar. Existe uma forma amorosa de agir. Isso não significa que você tenha falhado; significa que precisa agir agora, independentemente do que esteja sentindo ou pensando, pois alguém que você ama precisa de você. A seguir, estão algumas ações importantes para os momentos de crise:
- Entenda o Ato como um Sinal de Alerta: Diante de avidez, sujeiras intencionais, mentiras ou destrutividade, compreenda que o comportamento é um sinal de que a criança sentiu alguma perda ou instabilidade no lar.
- Evite Julgamentos Inquisitoriais: Aborde o deslize a sós com seu filho, em tom sereno e firme. Não faça interrogatórios humilhantes ou ameaçadores que empurrem a criança para a mentira defensiva.
- Exija a Reparação Concreta do Dano: Substitua longas broncas por ações práticas de restauração: faça a criança devolver o objeto pego, limpar a sujeira feita ou reparar o estragado. A reparação transforma a culpa em amadurecimento.
- Reafirme a Segurança e a Presença dos Pais: Reforce os horários, a rotina e a convivência familiar. O convívio seguro em um lar firme e acolhedor é o remédio mais eficaz contra os desvios da infância.