“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.”
João 14:6
Para que um sentimento seja sagrado, ele precisa estar de acordo com a Verdade.
Essa frase carrega o princípio que deu origem a este espaço.
Não acredito que um sentimento seja sagrado apenas porque é profundo, sincero ou intenso. Também não acredito que aquilo que sentimos deva ser ignorado, reprimido ou tratado como irrelevante.
Os sentimentos são reais.
Eles revelam movimentos que acontecem dentro de nós. Podem mostrar feridas, desejos, medos, afetos e necessidades que ainda não conseguimos nomear. Muitas vezes, são o primeiro sinal de que algo precisa ser visto.
Mas o fato de um sentimento ser real não significa que sua interpretação da realidade seja necessariamente verdadeira.
Posso sentir que fui abandonada sem ter sido abandonada. Posso sentir que preciso controlar tudo sem que tudo esteja sob minha responsabilidade. Posso sentir culpa por estabelecer um limite necessário. Posso até sentir paz diante de uma escolha que apenas preserva meu conforto.
O sentimento revela o que acontece dentro de mim, mas não possui, sozinho, autoridade para definir o que é verdadeiro, bom ou justo.
Ele precisa encontrar uma medida que não seja ele mesmo.
Quando o sentimento ocupa o centro
Vivemos em um tempo no qual os sentimentos frequentemente são tratados como a expressão mais autêntica de quem somos.
Se eu sinto, então deve ser verdade.
Se desejo, então deve fazer parte da minha identidade.
Se algo me causa desconforto, então deve ser necessariamente ruim.
Mas os sentimentos são afetados por nossa história, nosso corpo, nossas feridas, nossos pensamentos e pela maneira como aprendemos a interpretar o mundo.
Eles fazem parte de nós, mas não foram criados para nos governar.
Quando assumem o centro, podemos transformar dor em identidade, medo em direção, desejo em autoridade e necessidade de controle em responsabilidade.
Por isso, reconhecer um sentimento não é o mesmo que obedecê-lo.
Acolher aquilo que sinto não significa entregar-lhe o governo da minha vida.
O que torna um sentimento sagrado
Sagrado é aquilo que foi separado e consagrado a Deus.
Um sentimento não se torna sagrado quando é colocado acima de tudo, mas quando é retirado do centro e levado à presença do Senhor.
Ali, ele pode ser visto sem ser adorado.
Nomeado sem se tornar identidade.
Acolhido sem receber autoridade absoluta.
Confrontado sem ser desprezado.
O sentimento torna-se sagrado quando é colocado diante da Verdade e submetido à ordem de Cristo.
Deus não nos chama a fingir que não sentimos. Ele nos chama a andar na luz.
Diante dele, podemos apresentar o coração como está e permitir que o Espírito revele o que aquele sentimento carrega.
Talvez haja:
- uma dor que precise ser acolhida;
- uma mentira que precise ser confrontada;
- um pecado que precise ser confessado;
- uma responsabilidade que precise ser assumida;
- um peso que nunca nos pertenceu e precise ser devolvido;
- uma verdade que precise finalmente ser recebida.
O sentimento é o lugar de onde a conversa pode começar. Mas é a Verdade que deve conduzi-la.
A Verdade é uma pessoa
Quando falo sobre a Verdade, não me refiro apenas a um conjunto de ideias corretas.
A Verdade é uma pessoa.
Cristo não disse apenas que conhecia a Verdade. Ele disse: “Eu sou a Verdade”.
Nossos sentimentos são colocados diante daquele que nos conhece completamente e, ainda assim, nos ama.
Não por um amor que apenas confirma tudo o que encontra, mas por um amor que revela, confronta, sustenta e transforma.
A verdade de Cristo não nos humilha por sermos frágeis. Também não nos abandona às interpretações produzidas por nossa fragilidade.
Ela nos encontra onde estamos, mas não nos deixa presos nesse lugar.
Esse amor devolve cada coisa à sua posição:
- Deus no centro;
- a Verdade como medida;
- os sentimentos ocupando seu lugar;
- o corpo reconhecido como dom;
- o outro reconhecido como pessoa;
- a responsabilidade limitada àquilo que realmente nos foi confiado.
E nós, finalmente, livres da obrigação de sustentar aquilo que somente Cristo poderia sustentar.
Por que Sagrado Sentimento?
O verdadeiro autoconhecimento não acontece quando olhamos apenas para nós mesmos, mas quando encontramos nosso lugar diante de Deus.
É diante do Criador que a criatura começa a compreender quem é.
Por isso, conhecer Deus é recuperar a realidade.
Quando Cristo ocupa o centro, a fé alcança a rotina, os sentimentos encontram seu lugar e a vida começa, de dentro para fora, a reencontrar a ordem para a qual foi criada.
É desse caminho que nasce Sagrado Sentimento.
Um registro vivo de uma vida em formação.
Um lugar para observar, estudar, perguntar, confrontar e acolher.
Um espaço no qual os sentimentos não são desprezados, mas também não recebem um lugar que nunca lhes pertenceu.
Deus usa a vida, e a vida usa tudo: nossas perguntas, nossos processos, nossas descobertas, nossas dores e os caminhos nos quais escolhemos permanecer.
Sagrado Sentimento é uma construção.
O caminho de sentir, discernir e devolver.
Sentir o que é real dentro de nós.
Discernir esse sentimento à luz da Verdade.
E devolver cada coisa ao lugar para o qual foi criada.
Não para fazer de nós mesmos o centro da história, mas para encontrar nosso lugar diante de Deus e devolver a Cristo o lugar central que sempre lhe pertenceu.
Sagrado Sentimento.
Porque o sentimento precisa ser ouvido, mas somente a Verdade pode organizá-lo.
E, quando a Verdade organiza o que sentimos, a vida também começa a encontrar ordem.
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